quinta-feira, 3 de março de 2011

A filosofia em veículos de massa: um dilema.

Há quem duvide que a internet e a cultura dos “Blogs” possa prestar algum favor à filosofia. Em verdade, mesmo eu, em parte, engrosso esta estatística. Não há nada mais anti-publicista que a filosofia e, por mais que a queiram fazer popular, esta, desde suas origens gregas sempre foi ofício de alguns poucos e avessa por completo, ou quase, ao grande público. As falas de Hegel (quando este indica que para o senso comum a filosofia seria o “mundo às avessas”) e as desconfianças de Ortega y Gasset (quanto existência de surtos periódicos de interesse filosófico) seriam o bastante para legitimar tal avaliação. Em verdade, parece mesmo que a filosofia está mais para a contenção de um Sócrates, do que para o entusiasmo (à McLuhan) com as possibilidades galácticas de veículos que fariam deste modo de pensar um fenômeno viável a todos...
Para que, então, um Blog de filosofia? Não seria inócuo e mesmo incoerente investir nessa possibilidade, se é com objeção e desconfiança que já se vai a este empreendimento? Talvez... Mas, por outro lado, se lembrarmos que, no passado, mesmo Theodor W. Adorno (1903-1969) (eminente representante da Escola de Frankfurt e ardente crítico de veículos de massa como o rádio e a incipiente televisão) difundia suas conferências e preleções nas rádios alemãs (e hoje figura na web em tubes e podcasts), talvez não seja ilícito tentar, uma vez mais, fazer filosofia séria na rede.



Há tempos atrás abordei o tema em outro veículo, nos seguintes termos:

“A propósito de uma filosofia popular”

A série Ser ou Não Ser, vinculada ao programa dominical Fantástico, da Rede Globo, vem provocando inquietações no meio filosófico. Embora clara quanto a não pretensão de ser um curso de filosofia, a abordagem dada por Viviane Mosé não contenta aqueles que esperavam por uma introdução (ou seja, um primeiro contato com este campo teórico).
Parece louvável, e mesmo uma missão de educador, tentar traduzir a filosofia em termos menos escolares, o que poderia ser considerada uma popularização. Contudo, não é preciso conhecer muito de sua história para logo adquirir um olhar duvidoso sobre esta proposta.
Não é surpresa constatar que nos diversos momentos que se tentou trazer a filosofia ao grande público (tirando-a das altas esferas da especulação para tratá-la como parte da vida cotidiana) muitos fracassaram por seus métodos, ao diluir os conceitos e problemas filosóficos a ponto do maneirismo.
Como representantes destas tentativas, teríamos “filósofos do senso comum” Christian Garve e Karl Gottlob Schelle que, durante o século XVIII, em nome de uma filosofia popular, tentaram aproximá-la do cotidiano.
Em contexto diverso, temos Heinrich Heine se propondo a transmitir ao grande público os fundamentos da religião e filosofia alemã acreditando que “o povo que tem fome de saber agradece o pequeno pedaço de pão espiritual que com ele é partilhado”.
Se a motivação da série foi parecida com esta, não foi nela que as muitas críticas, veiculadas à imprensa escrita, se concentraram.
Para essas, parece ser consenso a inadequação da linguagem adotada, pois suas imagens e associações são, na maioria das vezes, aligeiradas, para não dizer equívocas, tendendo mais a confundir do que a elucidar.
Paradoxalmente, a tentativa de tornar a filosofia algo palpável e passível de aproximação conspira por torná-la comum, distanciando-a das questões que poderiam, até mesmo didaticamente, servir de ponto de partida para pensá-la junto às vivências (seguidas, quem sabe, de indicações de leituras, sem que isto incorra em um academicismo).
A maior deficiência não é a dificuldade técnica de falar de filosofia ilustrando-a para a grande mídia, mas a incompreensão de que a filosofia, por vocação, não se deixa reduzir a um produto a ser consumido no horário nobre; não se mostra como realidade multicolorida ou viagem delirante e está mais próxima da serenidade do que do espetáculo e da instantaneidade.
Malgrado, acredita-se que isso não embarga a iniciativa de integrar a filosofia aos canais da mídia, o que pensamos ser possível ao lembrar que importantes filósofos do século XX, como Adorno e Heidegger, participavam de debates ou liam seus textos em programas de rádio nas décadas de 1950-60, fazendo com que a filosofia destinada ao povo merecesse o nome de Filosofia.
Para o momento, ao menos parece fecunda a discussão sobre o tema filosofia, mídia e popularização.

Confira este texto em seu sítio original:

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=30277

Um comentário:

  1. Gilson Rangel Rolim16 de abril de 2011 05:55

    Li seu texto "A filosofia em veículos de massa: um dilema". Achei-o bem judicioso e concordo plenamente com o fecho, a partir de "Malgrado, acredita-se...".
    Abraço, Gilson

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